Pesquisa científica e a educação privada: o contingenciamento é um problema?

Marcelo Lima

Entenda como as instituições privadas têm sido impactadas pelo contingenciamento dos recursos para a pesquisa científica

Em março deste ano, o governo brasileiro anunciou o contingenciamento de R$5,8 bilhões das verbas destinadas à educação, afetando, diretamente, a pesquisa científica no país. 

Embora não tenha sido o primeiro corte na história do país, a medida culminou com protestos e discussões. Em um curto período, houve dezenas de anúncios de redução de investimentos em diversas áreas da educação, da básica à superior. 

Em meio a este cenário, a principal preocupação foi em relação às universidades públicas, afinal, elas são responsáveis por mais de 95% da pesquisa científica realizada no país. Assim, muitos acreditaram que o contingenciamento não tinha relação direta com as particulares. 

Contudo, será que não? Para tentar responder à pergunta, o blog Quero Educação entrevistou o Pró-reitor de Pesquisa da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Paulo Batista Lopes, e o Pró-reitor de pesquisa e pós-graduação da PUC Minas, Sérgio de Morais Hanriot.

A pesquisa científica na rede particular tem a perder com os cortes? 

Pelo que se divulga, tem-se a impressão de que apenas instituições federais e estaduais são prejudicadas pela redução de recursos, sobretudo porque a pesquisa científica está concentrada nas instituições públicas. Outro fato que induz a este pensamento é o ministro da educação, Abraham Weintraub, que  parecer simpático às instituições particulares. Ele chegou a defender o fortalecimento do ensino superior particular

Uma das justificativas dadas em um primeiro momento foi a intenção de fortalecer o ensino básico. Contudo, na semana passada, mais de R$300 milhões foram bloqueados para compra, produção e distribuição de livros didáticos e pedagógicos. 

O outro lado da história, representado pelos educadores, concordam que os cortes atingem, negativamente,  tanto as públicas quanto as privadas, ainda que em níveis diferentes.

Muito do valor investido pelo governo federal é destinado às bolsas e projetos de pesquisa. Quando os editais são lançados, não especificam um tipo de universidade (com ou sem fins lucrativos, particular ou não). O fator determinante é o mérito do projeto. Se a instituição tem um bom projeto, pode receber o aporte, independentemente de sua natureza jurídica

Efeitos

Segundo o Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-graduação, Sérgio Hanriot, todas as IES sofrem, sem exceção. “Isso pode inviabilizar uma série de pesquisas científicas que estão em andamento ou que estavam em vias de começar. E essa inviabilização afeta o país como um todo” afirma. 

Embora também acredite que o impacto atinge as IES privadas, o  Pró-Reitor de Pesquisa do Mackenzie Paulo Batista Lopes salienta uma diferença. “(…) As universidades privadas sempre receberam um pouquinho menos de bolsas, então, nós fomos impactados, mas não tanto quanto as públicas”. 

Apesar do efeito, os projetos de pesquisa do Mackenzie tem sido mantidos graças ao financiamento da Fapesp, Capes e bolsas de iniciação científica. “Nossos pesquisadores do CNPq por enquanto estão recebendo, apesar de o órgão divulgar que só tem dinheiro para pagar até setembro. Então, em setembro ou outubro, seremos mais impactados”, declara o Pró-Reitor.

“As universidades (públicas e particulares) dependem fortemente da mão de obra de pesquisadores que recebem bolsas, alunos de mestrado e doutorado, então o impacto na ciência brasileira é enorme”, acrescentou Lopes. 

pesquisa científica deve atender às demandas sociais e econômicas

Como a sociedade brasileira vê a pesquisa científica 

Ainda de acordo com o Pró-reitor da PUC, a cada corte na educação, observamos que as pessoas comuns desconhecem a relevância da pesquisa científica, portanto, não podem defendê-la. 

“O grande desafio das universidades é mostrar à sociedade o que está sendo feito ali e a importância de tudo que está sendo realizado. (…) Não há uma pessoa para quem a gente diga ‘vem cá conhecer a universidade, a área que você tiver maior interesse. Não há quem não se surpreenda e diga que não sabia que aquilo estava sendo feito”, afirmou Hanriot.

Desde a década de 70, com a criação e desenvolvimento de agências de pesquisa, até aqui, o país melhorou seus índices de desenvolvimento.  Mesmo em países como Estados Unidos, por exemplo, 60% da pesquisa e desenvolvimento são financiados pelo governo. Já na Europa, o índice é de 77%.  

“É preciso se perguntar o que a gente precisa para o país nos próximos anos, senão, vamos ser sufocados até o ponto de não haver mais pesquisa e desenvolvimento”, disse Hanriot. “Nenhum país do mundo disse ao Brasil ‘olha, vocês precisam produzir etanol, pois pode ser uma fonte de biocombustível’. Foi uma política pública de incentivo, a partir de um problema sério. Na década de 70, o barril de petróleo subiu enormemente. Com isso, o Brasil começou a pesquisar outras fontes alternativas”, acrescentou.

Ciência e tecnologia não atraem brasileiros tanto quanto acontece em outros países. De acordo com o Pró-reitor do Mackenzie, “é na iniciação científica que o aluno desperta para a ciência, entra no laboratório e começa a compreender como o conhecimento é gerado. Se de x bolsas, hoje tenho metade, não vou conseguir atrair mais alunos”, exemplificou.

A educação superior particular tem alternativa aos cortes do governo?

Em momentos de crise, trabalha-se com outras opções. A tendência é que universidades e setores industrial e de empresas envolvam-se no desenvolvimento de projetos em comum. As universidades deverão, cada vez mais, voltar suas pesquisas para solucionar os problemas e demandas desses setores. A previsão é de que o modelo tríplice hélice, que envolve governo, universidade e empresas, será cada vez mais forte. 

A PUC Minas já tem a tradição de desenvolver projetos de pesquisa em conjunto com empresas. Segundo o pró-reitor, isso movimenta a universidade, gera valor e desperta o reconhecimento.

Outros caminhos

Já o Mackenzie conta com 3 alternativas para manter sua pesquisa científica:

  • A instituição incentiva e até oferece consultoria de como apresentar projetos na Fapesp;
  • Ela também mantém uma agência interna, a MackPesquisa, cujos editais têm a participação dos professores do Mackenzie;
  • A terceira alternativa, e  a mais importante  para o professor, em termos de inovação, é a aproximação com a indústria. “Trazemos pessoas da indústria para verificar o que fazemos de pesquisa. Tentamos identificar problemas para os quais podemos encontrar soluções. Talvez, no futuro, até possamos incluir uma startup com coparticipação entre  indústria e universidade”, afirmou Lopes.

O professor acredita que no Brasil e mundialmente, a ideia de que a inovação é uma saída para alguns dos nossos gargalos econômicos. No entanto, é preciso enfrentar muita burocracia. 

“No caso do Mackenzie, que não é uma instituição tão grande assim, além de ser privada e comunitária, temos um pouquinho mais de agilidade que uma universidade pública. Então, nossa atividade tem sido mais intensa nesse sentido. Contudo, acredito que as barreiras  estão sendo superadas aos poucos, devido à própria ideia de inovação”, disse.

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Pesquisa científica e a educação privada: o contingenciamento é um problema?

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