Inovação na educação: o que a queda do Brasil no IGI significa? 

Sergio Fiuza

O Brasil caiu duas posições no Índice Global de Inovação, principal ranking mundial do setor. O que isso tem a ver com inovação na educação brasileira?

Entre 129 países, o Brasil ocupa o 66º lugar no Índice Global de Inovação, o que já é uma pista de como está a inovação na educação superior brasileira. O país está abaixo de todos do bloco econômico do qual faz parte, o BRICS. Também está atrás de outros países latinos, como México, Chile e Uruguai. 

O tema especial do IGI 2019 analisa o panorama da inovação médica da próxima década, observada como a inovação médica tecnológica, e como ela  transformará a prestação de cuidados de saúde no mundo.

De acordo com dados anteriores, o Brasil tem ocupado sempre entre a 60ª e a 70ª posições nos últimos 10 anos. Para analistas, os obstáculos à inovação incluem falta de apoio fiscal consistente e investimento em profissionais que trabalhem em projetos de transformação digital. Além disso, o número de invenções patenteadas não é suficiente. 

Quando nos referimos à inovação na educação superior, o que a posição no ranking significa? 

Para discorrer sobre o tema, o blog Quero Educação entrevistou Arthur Igreja, especialista em inovação, professor da Fundação Getúlio Vargas e, também, empresário de sucesso. 

O cenário da inovação na educação superior 

uma mão escreve em um tablet representando uma instituição de ensino inovadora

Qual é o papel das instituições de ensino superior e o que significa ser “educado” no Brasil? As IES daqui preparam os alunos para o mercado de trabalho ou têm um propósito maior que esse? Ambas as opções? Nenhuma delas?

Independentemente da resposta, sabemos que a educação já não pode manter o mesmo propósito, conteúdo, pedagogia e metodologias. Tecnologia, mudanças na sociedade e a tendência ao aumento dos custos nos trazem desafios e a necessidade de ser inovador em uma cultura educacional que tende ser inflexível à mudança

Para o especialista Arthur Igreja, o crescimento do EaD nos últimos anos não pode ser considerado inovação. Se vamos mal no quesito inovação, segundo o IGI 2019, na educação está ainda pior. 

“(…) Não há grandes inovações acontecendo. Há algumas iniciativas emergentes, como as startups, mas está no mesmo ritmo do que a gente observa no setor de serviços e indústria. Ainda há uma grande fraqueza na capacidade de inovação”, afirma. 

Inovação elitizada e burocrática

Na visão do professor, algumas iniciativas inovadoras têm surgido para programas elitizados. Atualmente, há quem pague muito caro por modelos de educação que são inovadores em formato e duração. No entanto, fogem um pouco do radar tradicional da educação. Do outro lado, tem-se a consolidação do mercado com grandes grupos pressionando para ganhar escala.

“A dificuldade vai ser levar esses modelos inovadores para mais pessoas. Há coisas acontecendo, mas em um nicho de elite. Isso está ocorrendo na educação informal, especialmente na educação de atualização e de programas especialmente voltados aos negócios, porque o ticket é muito alto”, disse Igreja. 

Segundo o especialista, as restrições de regulamentações são pesadas no Brasil. Atualizar o currículo de um curso é difícil, assim como atualizar sua forma e duração. No fim das contas, as instituições acabam sendo regidas pelas normas do MEC, que se atualizam muito lentamente. “A regulamentação tem bloqueado a inovação em alguma medida no mercado tradicional de educação. Dessa forma, quem tem dinheiro procura programas específicos e nichados”, acrescenta. 

Isso nos leva a refletir sobre o papel do Estado, que, de acordo com Igreja, deveria permitir mudanças. “(…) O papel do Estado é entender esse momento em que a educação precisa de maior flexibilidade e rever essas regras”. 

Inovação na educação e nas empresas

estudante escrevendo em papeis e com uma xícara de chá a frente

De fato, todas as IES terão de ser inovadoras se quiserem sobreviver. Há mais risco de manter-se rígido, do que em abordar alternativas sobre como as faculdades oferecem e apoiam o aprendizado. Uma delas envolve parcerias com empresas e indústrias, o que já temos visto acontecer. 

De um lado, temos a insatisfação de quem estuda e as instituições sangrando porque suas margens de lucro declinam. De outro, temos o mercado de trabalho reclamando que não encontra profissionais capacitados. Todos estão insatisfeitos com o modelo atual. “O papel das empresas é identificar dificuldades e oportunidades. (…) É preciso olhar para isso como oportunidade e trazer soluções, ser criativo, ser inovador, em vez de esperar que venha uma resposta do Estado. Ou pior, esperar o mundo ideal para fazer isso”, conclui.

Uma virada de chave é possível?

o empresário e professor Arthur Igreja sorri para a câmera com um paletó preto e blusa branca

Uma mudança para o Brasil se tornar uma nação inovadora em educação depende de alguns fatores. Quando do boom de instituições privadas, houve uma onda de pessoas que buscaram educação, pois entendiam que, se cursassem o ensino superior, desfrutariam de uma vida financeiramente melhor. 

Hoje, a busca pela educação é considerada pré-requisito para arranjar emprego. “O aluno não vê o professor como modelo de sucesso. (…) Para ter uma virada de chave, a educação tinha de ser vista como mola propulsora. A pessoa deveria ir com gana de estudar, porque sabe que aquilo vai trazer um grande resultado na vida dela”. 

Parte da responsabilidade é das IES, que têm dificuldade para responder às demandas do mercado profissional. “O aluno não entende que o que ele paga vai se reverter num benefício que lhe salta aos olhos. Atualmente, o aluno está à deriva e o modelo é tóxico: professores reclamando, alunos insatisfeitos. A parte boa é que justamente esses momentos são os que antecedem as grandes viradas”. 

Igreja ainda acrescenta: “além disso, seria necessária uma mudança cultural: o brasileiro, de fato, se apaixonar por estudar, mas nós estamos longe disso”.

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Inovação na educação: o que a queda do Brasil no IGI significa? 

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